Estudos Literários

1. Amazônia (i)limitada: Reminiscências, percepções, projeções a partir de textualidades do século XXI 
– Eduardo Jorge de Oliveira, Pauline Bachmann, André Masseno, Dayron Carillo-Morell –  

Contato(s) - eduardo.jorge@rom.uzh.ch / pauline.bachmann@uzh.ch /
andre.masseno@rom.uzh.ch dcarrillo.morell@rom.uzh.ch

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Descrição:
No mundo pós-global, a tensão entre os interesses do capital financeiro, as agendas nacional-desenvolvimentistas que procuram expandir a produção agrícola, a extração de matéria-prima, a crescente ameaça à humanidade através das mudanças climáticas, a defesa da biodiversidade, os direitos e a autonomia das terras indígenas e camponesas são fatores que transformam o espaço geográfico da Amazônia em um lugar onde estas tensões materializam confrontos violentos. Da perspetiva da estética, da teoria crítico-literária e da história cultural, este painel pretende focar as temporalidades amazônicas, lidando com as reminiscências, perceções, projeções através de obras artísticas e literárias. Em termos de reminiscências de uma história textual e visual entre os séculos XIX e XX, a Amazônia sempre foi representada como um espaço da incontável e incalculável natureza selvagem; um território liminar às margens da chamada civilização (Euclides da Cunha, Margem da história, 1909) e da lei (Finazzi-Agrò, 2015), onde a hospitalidade e a hostilidade foram coexistindo sem contradição. No que concerne as perceções e projeções, a Amazônia e os trópicos tornaram-se muito cedo o lócus central para o imaginário europeu de seu outro. No entanto, tal lócus funcionou como a imaginação do paraíso terrestre, repleto de abundância e fertilidade, e ao mesmo tempo como a materialização do inferno, com inúmeras doenças tropicais, vida selvagem perigosa e a ideia europeia de degradação intelectual através do clima tropical (Ette 2015: 148) –– em suma, como um Inferno verde (Alberto Rangel, 1908) que se prolongou até a segunda metade do século XX com a ditadura militar no Brasil (1964 – 1989). Além disso, as imaginações de vida indígena oscilam entre o assombro – como o canibalismo tribal ilustrado por Hans Staden –, e a idealização expressa na conceção do “bom selvagem” e do indianismo romântico brasileiro. Na primeira metade do século XX a imagem do indígena foi utilizada para a construção da identidade nacional no “Manifesto Antropófago”, de Oswald de Andrade (1928). O conceito da Antropofagia oswaldiana foi então transformado em uma estratégia cultural quase pós-colonial durante os anos 1970, quando passou a ser concebido como a capacidade de absorção de elementos culturais estrangeiros, sendo transformados em algo novo que se torna um componente da cultura brasileira. No entanto, tais representações não deixam de constituírem um constructo para a imaginação sobre a própria natureza da Amazônia (Métraux, 1928; Sá, 2004). A forma como se concebe a Amazônia está culturalmente fundamentada no controle social do imaginário (Costa Lima, 1989), da natureza e sua relação com a literatura. No limiar do século XXI, uma série de textos que representam vozes indígenas vem reivindicar uma autoimaginação da floresta e de suas formas de vida, desafiando as conceções sobre a Amazônia que impuseram uma perspetiva excêntrica àquele espaço. Textos como A queda do céu (La Chute du Ciel, 2010) de Davi Kopenawa e Bruce Albert, e Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está a venda (2020) e A vida é inútil (2020), de Ailton Krenak, questionam o próprio conceito do humano construído em oposição à flora e fauna, ou seja, em oposição à natureza, que ecoa nas descrições do Antropoceno e no que Álvaro Faleiros chamou de tradução xamânica (2020). Neste sentido, este painel procura discutir estas novas e mutáveis perspetivas da Amazônia, investigando o papel central que os textos (impressos e não impressos) e as imagens performam na construção imagética da Amazônia como um espaço real e habitado, onde pode surgir um conceito de co-habitação simultaneamente cósmico e comunitário. 


2.  Ruturas históricas e reações literárias

– Alexander Altevoigt, Tobias Brandenberger -
Contato(s) - alexander.altevoigt@uni-goettingen.de /

tobias.brandenberger@phil.uni-goettingen.de

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Descrição: 

É frequente aparecer o termo de “rutura” quando se fala de acontecimentos políticos, sociais, económicos ou culturais que provocam uma pausa ou uma viragem no decorrer da História. Tais momentos são muitas vezes entendidos como crise que traz mudanças radicais e interrompe a continuidade histórica. Contudo, uma visão simplificadora do fenómeno não faz justiça à complexa dinâmica de ruturas e continuidades. É preciso distinguir entre ruturas sociais e ruturas individuais (biográficas), já que apesar de os acontecimentos históricos particularmente significativos para uma sociedade em geral mudarem frequentemente a vida privada das pessoas, isto não implica necessariamente que representem também uma rutura nas biografias pessoais. De qualquer modo, tanto a história como as ruturas que nela se produzem não deixam de ser suscetíveis de serem consideradas como meras construções do pensamento humano. 
Quando se dedicam à historiografia e assim à reconstrução (supostamente) descritiva e objetiva dos acontecimentos, os historiadores recorrem normalmente ao conceito de continuidade e rutura, uma vez que o fluxo do tempo é estruturado através de acontecimentos concretos. Nesta secção, no entanto, o objetivo é revelar a abordagem subjetiva-emocional da continuidade e de ruturas históricas em textos literários e analisar as reações estéticas perante tais acontecimentos marcantes. Estas reações podem consistir na tematização de momentos históricos concretos em textos, na modificação de modelos ou discursos estéticos que se revelam na literatura, rompem com as tradições ou se integram numa continuidade. As literaturas de língua portuguesa oferecem um amplo panorama de reações literárias a momentos significativos: pense-se na(s) reações(s) ao 25 de Abril, ao Terremoto de 1755, à perda da independência portuguesa depois de Alcácer-Quibir, à transferência da corte real para o Brasil em 1808, à Guerra Civil Moçambicana ou ao Massacre de Batepá em São Tomé. Momentos como a Semana da Arte Moderna em São Paulo são, por sua vez, ruturas (culturais) que são entendidas e pretendidas como tais e que podem ser vistas, em retrospetiva, como marcadores da história cultural.


A nossa secção oferece a oportunidade de tratar vários tópicos relacionados com o tema “Rutura(s) nas literaturas de língua portuguesa”:
• Como e quando reage a literatura às transformações históricas e ruturas?
• Em que medida podem os próprios textos literários fazer parte de ruturas?
• Como é que os textos literários negociam a relação entre a continuidade e a rutura?
• Que língua, símbolos, imagens e tipos de texto são preferidos quando se fala de ruturas?
• Qual é a relação entre as ruturas sócio-históricas e as ruturas biográficas/individuais?


Convidamos todos os interessados a enviar um resumo (máx. 300 palavras) referente às propostas de comunicação (20 minutos) e uma breve apresentação bio-bibliográfica, em português ou alemão, até ao dia 31 de maio de 2021 aos organizadores da secção: Alexander Altevoigt (alexander.altevoigt@uni-goettingen.de) e Tobias Brandenberger (tbrande@gwdg.de). A seccção terá lugar no âmbito do 14° Congresso Alemão de Lusitanistas, 15-19 de setembro 2021, Universidade de Lípsia (Alemanha). 

3.  História, memória e narração nas artes do tempo (literatura, teatro, cinema) na cultura de expressão portuguesa
– Rosa Maria Sequeira, Axel Schönberger –
Contato(s) - Rosa.Sequeira@uab.pt

schoenberger@uni-bremen.de

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Descrição:
As contribuições desta secção centrar-se-ão no questionamento do modo pelo qual o imaginário do passado participa na construção e crítica do presente através de algumas das ditas artes do tempo como a literatura, o teatro e o cinema na cultura de expressão portuguesa. O tempo humano é um tempo narrado e, em cada uma destas artes, é uma categoria estrutural (Barthes).
 
 A dimensão temporal comporta aspetos fenomenológicos, hermenêuticos e antropológicos cujos conteúdos escapam ao tempo objetivo. Na narrativa, diz-nos Paul Ricoeur, a significação do tempo descontínuo é substituída pela perceção da existência numa temporalidade social e psíquica. A consciência do tempo, os «espaços-tempos» particulares são suscetíveis de análise dos modos como o tratamento estético instala fraturas na continuidade temporal. O tempo histórico e o modo fictivo cruzam-se pela narratividade que articula traços de permanência e traços de mudança. Trata-se de elaborar pontos de encontro que remetem para as possibilidades de repensar o passado e os futuros possíveis ou alternativos e de analisar os modos pelos quais a narração nestas artes impõe uma ordem separada do tempo. Por conseguinte, esta secção acolhe comunicações que estabeleçam esta relação bem como perspetivas interdisciplinares que convoquem a narratividade numa perspetiva interartes, tratando quer a presença do tempo na experiência individual, a memória, quer a presença do tempo coletivo, a história, a qual, como Bhabha argumenta, pertence tanto às narrativas sobre o passado quanto aos sujeitos que narram no presente.
 
 A publicação das contribuições da secção está prevista. 

4. Narratividade e temporalidade: a questão temporal nas narrativas literárias em língua portuguesa
– Gabriella Campos Mendes –
Contato(s) - gabriellamendes@yahoo.com.br

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Descrição:
Os conceitos de tempo e narrativa são indissociáveis pela circularidade que os agrega: “o tempo torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo; em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal.” (RICOUER, 1994 : 15). A vivência humana, por sua vez tornada construção textual pelo artifício da linguagem, encontra na prosa uma das suas manifestações mais naturais, à qual é incutida e reconhecida uma dinâmica de narrativização. (FLUDERNIK, 1996 : 313).

O reconhecimento da prosa como material artístico e digno de algum reconhecimento institucional – sobretudo a partir do século XVIII – demonstra, porém, a maleabilidade e complexidade do próprio conceito de narração, principalmente pela inventividade literária que o submete às mais extremas situações narrativas (RICHARDSON, 2006). A literatura questiona a hipótese da naturalidade da forma narrativa; relativiza a sua capacidade de organizar a experiência humana dentro de uma lógica temporal; e consequentemente, problematiza a própria existência de uma lógica temporal (HEINZE, 2013 : 33).

Assim, perguntamos: a desconstrução das formas mais tradicionais de narrativas literárias – a exemplo das literaturas moderna, pós-moderna e contemporânea – afeta a perceção do leitor sobre o tempo? Marcas culturais e/ou geracionais, como a ausência de um projeto de futuro, podem estar associadas à morte da função narrativa, nos termos de Lyotard (2003 : 12), e da escrita teleológica? Ou, por um viés mais historicista, são estes artefatos literários uma manifestação material de uma nova perceção sobre a temporalidade?

Pretendemos, nesta secção, debater as diversas hipóteses de interpretações sobre a narratividade – como elenca Reis (2018 : 330) – e o seu processo de reelaboração em textos literários em língua portuguesa, destacando as várias possibilidades de compreensão do conceito de tempo que estão atreladas à dinâmica narrativa. 

A secção será realizada exclusivamente em português. 

5. Temporalidades do naturalismo no Brasil: presente amplo e ressurgimentos de uma estética literária
– Sarah Burnautzki, Marianne Peregrino –
Contato(s) - sarah.burnautzki@rose.uni-heidelberg.de

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Descrição:
A emergência do naturalismo no Brasil coincide com um momento de transição histórica importante, marcado pela procura de um novo projeto da nação. Após a abolição da monarquia e da escravatura, se tratava de definir uma nova identidade nacional brasileira e, sobretudo, imaginar e depois construir politicamente um futuro para um país economicamente dominado dentro de uma ordem mundial desigual. A literatura e, especialmente o naturalismo, desempenham um papel central neste processo da imaginação da nação (B. Anderson, 1998).

 

Inspirados pelo naturalismo europeu e por discursos científicos tais como positivismo, darwinismo social, evolucionismo, os intelectuais brasileiros da “geração de 1870” (apesar de nunca ter sido um grupo unido ou homogêneo), discutem estes conceitos de forma polêmica, examinam sua aplicabilidade ao contexto brasileiro e pensam sobre a possibilidade de dar um fundamento objetivo ao estudo da literatura (R. Ventura, 1991). Alguns como Araripe Júnior elevam o meio tropical brasileiro a uma fonte criativa de novos temas e formas literárias criando, assim, um estilo literário nacional genuinamente brasileiro.

 

No âmbito das discussões da elite, entretanto, não se discutem apenas questões literárias, é possível verificar em suas projeções para o futuro, o ideal de “branqueamento” (L. Schwarcz, 1993; Th. Skidmore, 1976), ou seja, a tendência de um projeto eugenista iniciado no século XIX.

 

Embora o naturalismo se tenha tornado a corrente literária dominante no final do século XIX, ressurgiu de várias formas diferentes no século XX, carregado com outras implicações e projetos políticos. Neste sentido, a crítica literária Flora Süssekind identifica três momentos do naturalismo brasileiro: Século XIX – o naturalismo científico, associado ao positivismo, e que se tornou um instrumento estético e ideológico para formação da identidade nacional; década de 1930 – o naturalismo econômico que, sob influência do realismo soviético, marcou a produção do regionalismo; e década de 1970 – naturalismo jornalístico que caracterizava parte da literatura nacional durante o regime militar (Süssekind 1984). 

 

Outros críticos literários apontam para as novas temporalidades da estética naturalista na literatura brasileira nos nossos dias. No que seria o quarto retorno do naturalismo, segundo alguns, destacam-se obras como “Cidade de Deus” de Paulo Lins, “Capão Redondo” de Ferréz, e muitas outras, sobretudo, produzidas a partir de agentes e territórios periféricos (H. Buarque de Hollanda 2014, B. Resende 2008 e K. E. Schøllammer 2013).

 

Dessa forma, é possível inferir que a estética naturalista se inscreve no conceito de presente amplo proposto pelo 14º Congresso Alemão de Lusitanistas. A secção temática “Temporalidades do naturalismo no Brasil: presente amplo e ressurgimentos de uma estética literária” se propõe a identificar e discutir as formas do naturalismo na literatura brasileira do século XIX aos nossos dias e visa ainda analisar também o contexto histórico e condições que permitem a ressignificação e presença constante dessa estética ao longo do tempo. Trataremos as questões seguintes:

 

Como a literatura e os discursos científicos se articulam nos séculos XIX e XX? Que visões do presente e projeções do futuro se inscrevem nesse naturalismo? Como o naturalismo se posicionava frente aos projetos políticos tocados pela elite brasileira do século XIX? O naturalismo serviu como instrumento de manutenção e normativização da estrutura social e hierárquica desse período? E é possível afirmar que a Nação idealizada pela elite brasileira do século XIX teve influência e afetou o naturalismo? No entanto, e nas décadas seguintes, poderemos também identificar novos naturalismos? Como fenômenos literários como o naturalismo ressurgem e quais seriam as novas implicações políticas que eles carregam? E quais temporalidades simultâneas e múltiplas podemos observar nos retornos e continuidades do naturalismo na literatura brasileira contemporânea? Trabalhos voltados para critica da “aclimatação” do naturalismo no Brasil e das relações entre realismo e naturalismo também são bem-vindos na nossa secção.

6. Passados e futuros presentes no Brasil: relações entre tempo e violência na literatura e no cinema
– Jaime Ginzburg, Joachim Michael –
Contato(s) -  ginzburg@usp.br /

joachim.michael@uni-bielefeld.de

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Descrição:
A história de Ponciá Vicêncio, no romance homólogo (2003) de Conceição Evaristo, é de um “sofrimento antigo” que se associa, como a narração mostra, a experiências do avô da personagem, que tinha sido escravo. Essa dor se articula com trajetórias de descendentes de escravos que, embora formalmente livres, não conseguem eliminar um “jugo” que se revela como “eterno”. Mesmo afastada no tempo e no espaço das situações vividas por seu avô, a protagonista não consegue superar a dor. Imagens fantasmagóricas perseguem-na, impedindo que ela esqueça como a escravidão devastava a vida das gerações anteriores. Atormentada, sua própria subjetividade é abalada por uma ausência que desperta estranhamento em suas relações com os próximos, e com ela mesma. Nessa perspectiva, Ponciá Vicêncio expõe um caso de um trauma transgeneracional, com um sofrimento que impregna diversas gerações familiares. Ao expor isso, de forma metonímica, o romance constitui imagens da história do Brasil como uma história traumática, em que o passado da escravidão não se extingue, e se sobrepõe ao presente. Como a escravidão, abolida há mais de um século no Brasil, aparece destruindo existências num período recente, no qual direitos civis são garantidos por leis constitucionais, é importante observar que, em determinadas circunstâncias, como as delimitadas pelo romance de Conceição Evaristo, violência e tempo se relacionam de uma forma específica: a ordem sucessiva do tempo suspende-se, e a devastação estabelece uma continuidade, que se desprende das circunstâncias históricas de eventos com atos violentos, e alcança períodos posteriores a essas ocorrências. 

Outro exemplo é o romance K. Relato de uma busca (2011) de Bernardo Kucinski. O livro apresenta duas desgraças: a de uma mulher, A., desaparecida pelo grupo do Delegado Fleury durante a ditadura militar (1964-1985), e a de seu pai, K., que incansavelmente busca sua filha. Os obstáculos para esclarecer o desaparecimento de A. causam sofrimento constante na vida de K., durante anos de tormentos. A ideia de que, neste caso, a violência se estende no tempo, mesmo décadas após os atos de agressão, é reforçada pela narração, que deixa entrever que também a vida do narrador, irmão de A., é afetada no presente em que ele conta a história (no ano de 2010). 

Ambos os textos apresentam processos de longa duração, caracterizados por intensa violência na história do Brasil – a escravidão em Evaristo, e a ditadura militar em Kucinski. Nas duas obras, os protagonistas são atormentados por episódios de violência ocorridos no passado. As narrativas não se restringem a expor traumas individuais; ambas expõem que estruturas sociais reproduzem a violência do passado no presente. De acordo com essa perspectiva, grupos da elite econômica brasileira, na história recente do país, tratam descendentes de escravos de modos desumanos, que lembram a servidão no sistema escravista, e grupos da elite política exercem de modo autoritário práticas que remontam à repressão ditadura militar, incluindo uma constante persistência em não respeitar o suplício dos familiares de desaparecidos. 

As imagens do futuro do país, em algumas obras recentes de literatura e cinema, incluem construções de distopias nas quais a violência, provocada ou legitimada pelo Estado, constitui o horizonte das relações sociais. Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e A nova ordem, livro de Bernardo Kucinski, são exemplos importantes de elaborações estéticas que despertam reflexões a respeito de hipóteses sobre o futuro do país. No filme, a falta de água potável é uma indicação das dificuldades de sobrevivência de uma comunidade. No livro, a aniquilação de intelectuais, na parte inicial, antecipa a extrema repressão do Estado detalhada ao longo da narrativa. Essas imagens do futuro são, ao mesmo tempo, remissões ao passado brasileiro, sendo que, no caso de A nova ordem, o futuro consiste, simultaneamente, em uma continuidade de práticas da ditadura militar e em uma revisitação do próprio ano de publicação do livro, 2019, como uma projeção do futuro sobre o presente.     

Estas reflexões sobre as configurações do tempo histórico delimitam o enfoque da presente seção. A memória, o trauma e o testemunho são elementos constitutivos de narrativas que ensaiam maneiras de expressar impactos de desastres históricos passados, entre genocídios e sistemas de torturas. A forma da distopia constitui um horizonte de reflexão sobre o futuro, através de avaliações críticas do passado. Literatura e cinema, de acordo com a hipótese em discussão, propõem articulações entre categorias temporais que subvertem elementos, como linearidade causal e medidas habituais de duração do tempo, em favor de articulações descontínuas do tempo. 

A secção será realizada exclusivamente em português.

7. A literatura como indagação ao passado-presente: persistências do imaginário colonial e do autoritarismo na contemporaneidade
– Silvio Renato Jorge, Roberta Guimarães, Franco Faria de Assis, Daniel Marinho Laks –
Contato(s) -  robertagf@uol.com.br  /
daniellaks@yahoo.com

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Descrição:
O efeito de presença do passado como elemento constitutivo do tempo presente é um sintoma da autoconsciência histórica da contemporaneidade apontado por diversos autores, desde teóricos do pós-modernismo e do pós-colonialismo até estudiosos das dinâmicas da memória. 

Andreas Huyssen (2000), em Seduzidos pela Memória: Arquitetura, Monumentos, Mídia, postula que a manifestação da memória como preocupação cultural e política contemporânea característica das sociedades ocidentais apresenta um contraste com o privilégio dado ao futuro nas décadas iniciais da modernidade do século XX. Stuart Hall (2003), em "Quando Foi o Pós-Colonial? Pensando no Limite", defende que o sufixo "pós", de pós-colonial, não se refere a uma superação, a uma ruptura completa com o colonialismo, mas antes a uma continuidade, a uma notória persistência dos efeitos da colonização e da difícil desconstrução das imagens cristalizadas por esta. Linda Hutcheon (1991), por sua vez, em Poética do Pós-Modernismo, correlaciona as contradições do pós-modernismo com as da sociedade governada pelo capitalismo recente, manifestadas, em ambos os casos, no conceito de presença do passado. Apesar dos diferentes enfoques propostos pelos campos de estudos diversos, todos confluem na localização do passado como irradiador de dinâmicas culturais e políticas no tempo presente. 

            No caso específico de países de língua portuguesa, como Portugal, Angola e Moçambique, se a relação com o passado apresenta-se como uma constante ao longo da história das literaturas, nas produções contemporâneas a sua presença irrompe marcada por um complexo imaginário construído ao longo do século XX. As imagens alimentadas pelo Estado Novo português, como justificativa para a manutenção de um Império tardio e decadente e a consequente subjugação dos povos colonizados, surgem na literatura contemporânea como sintoma de um passado que se projeta no presente e não cessa de retornar. Enfrentar tais imagens parece ser uma constante em produções literárias publicadas nesses países mais recentemente, de modo a problematizar o percurso histórico empreendido por eles anteriormente e propor uma percepção crítica do tempo presente, com as diferenças que constituem cada espaço sócio-cultural em suas especificidades.

            No Brasil, por sua vez, após a divulgação do Relatório da Comissão Nacional da Verdade, em 10 de dezembro de 2014, há uma explosão de títulos interessados em discutir as marcas da violência e da repressão ditatorial na sociedade, demarcando a temática dos desaparecimentos políticos do período, bem como dos silenciamentos impostos pelo regime autoritário, sobretudo diante do ressurgimento, no país, do discurso autoritário em instâncias de poder político.

            A partir das questões situadas, pedimos propostas de comunicação que versem, nos contextos das literaturas de língua portuguesa, sobre produções que discutem o trauma decorrente de processos marcados pela violência e/ou pela imposição de formas culturais alienantes; o racismo e a discriminação, sobretudo no âmbito do refluxo de pessoas que saíram dos espaços coloniais em direção à antiga metrópole e vivenciam, na diáspora, formas de exclusão ou ainda, mais especificamente no caso brasileiro, nas estruturas alienadas de constituição do espaço social; a permanência, nas sociedades que passaram pelo processo colonial, de modelos sociais que confrontam as tradições dos povos originários; por fim, sobre os mecanismos de resistência ao apagamento imposto pelos regimes autoritários que exerceram governança nesses territórios.

8. O relógio da vida não anda para trás:
 gravidez, doenças, idade e o corpo-cronômetro
– Janek Scholz, Jasmin Wrobel –
Contato(s) -  janek.scholz@uni-koeln.de /

jasmin.wrobel@fu-berlin.de

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Descrição:
Temporalidade e finitude estão escritas no corpo humano através do processo de envelhecimento e da progressão de doenças. Com cada tique-taque do corpo-cronômetro, estamos nos aproximando do nosso fim. Nesta época da auto-otimização, tentamos retardar o processo de envelhecimento natural e forçar uma “parada” ou até a “volta” a uma physis anterior. Ao mesmo tempo, a velocidade com a qual temos que enfrentar nossa mortalidade é acelerada por doenças degenerativas. Quando a própria finitude se encontra diante dos olhos, surgem reflexões e diálogos com o passado. Episódios vividos e não vividos invadem a consciência, assim como palavras ditas e não ditas; lembranças da infância e momentos-chave da própria vida substituem a história mais recente e dificultam a experiência consciente do presente. Isso vale tanto para lembranças positivas como para traumáticas: a mente e a memória podem se tornar tanto lugares de abrigo quanto de detenção. O tempo, porém, pode adquirir um efeito curativo, como quando o Eu atual se posiciona em uma distância objetiva em relação ao Eu mais antigo que vivenciou momentos traumáticos ou perdas dolorosas.

A temporalidade também está escrita – e de maneira visível ao mundo exterior – no corpo feminino durante a gravidez, na qual desde o início o “corpo compartilhado” é alvo de apreciações feitas por diferentes grupos sociais. As mudanças físicas, o aumento do corpo-cronômetro e outros efeitos colaterais da gravidez geram mudanças na autopercepção e na forma como se é percebida pelos outros. Defrontar-se com a passagem do tempo é uma reação inevitável, principalmente quando a gravidez não é desejada pela mulher, que precisa então tomar uma decisão rápida sobre o próprio corpo e a própria vida.

As marcas temporais do corpo não têm um efeito exclusivamente pessoal. As doenças e a velhice causam um desconforto coletivo e são consequentemente silenciadas nas sociedades ocidentais. Isso as torna uma categoria de discriminação. Numa sociedade que celebra a juventude, a produtividade, a atividade e a funcionalidade do indivíduo, parece não haver espaço para a velhice, as doenças e as mudanças visíveis do corpo e da mente. Entre a autopercepção e a percepção dos outros, são colocadas em questão a responsabilidade, a resiliência e a autonomia de idosas, idosos e doentes.

No entanto, cada vez mais as pessoas afetadas vêm fazendo frente ao silêncio e à exclusão física. Através de manifestações políticas (como demonstrações), artísticas (como textos autoficcionais) e individuais (como a amamentação em lugares públicos), essas pessoas ocupam o espaço público e tornam visíveis a temporalidade, a finitude e os novos começos. A discussão em torno da autodeterminação (física) abrange ainda a capacidade de tomar decisões sobre o fim da própria vida: o suicídio (assistido) e a eutanásia como “saídas” autocontroladas causam reações e avaliações muito diferentes, dependendo do ponto de vista (religioso, ético, político) sob o qual são discutidos.

Discutindo e ampliando perspectivas e projetos internacionais de pesquisa (como o projeto PathoGraphics na FU Berlin, patrocinado pela Fundação Einstein), esta sessão quer abordar a conexão entre corporalidade, temporalidade e finitude no mundo lusófono, partindo de uma perspectiva interseccional, incluindo estudos literários, culturais e de mídia; a matriz teórica é formada pelas Age Studies, Dis/Ability Studies, Gender Studies e Queer Studies. De que forma o tempo marca o corpo? Quais estratégias estéticas usam autoras, autores e artistas para evidenciar mudanças corporais no decorrer do tempo? Qual é a relação entre a autopercepção e a percepção externa do corpo em mudança, em conexão com os papéis sociais? De que maneira muda a percepção do tempo para grávidas, doentes ou pessoas na terceira idade? Como encenar as lembranças (corporais)? Para discutir essas questões, os seguintes aspectos temáticos podem servir de auxílio:

  • Processos de envelhecimento, como descritos em A máquina de fazer espanhóis de Valter Hugo Mãe (2010), Leite Derramado de Chico Buarque (2009) ou na BD/HQ Aos Cuidados de Rafaela de Marcelo Saravá (2014).
  • A percepção do passado, do presente e do futuro no contexto de doenças degenerativas como o câncer, como na novela Hanói de Adriana Lisboa (2013) ou na BD Daytripper de Fábio Moon e Gabriel Bá (2011), em cuja trama a vida do protagonista é encerrada diversas vezes por causas distintas.
  • O corpo moribundo e sua invasão do espaço público: HIV e Aids como Momento mori coletivo (como no filme Cazuza: O tempo não para de Sandra Werneck e Walter Carvalho, de 2004, o filme Boa sorte de Carolina Jabor, de 2014, assim como as obras ficcionais de Silviano Santiago e Caio Fernando Abreu).
  • Alterações físicas extremas como recomeço: o corpo que muda por causa de obesidade (como em A gorda de Isabela Figueiredo, 2016) ou gravidez (o filme A Vida Invisível de Karim Aïnouz, 2019) e a subsequente ruptura com expectativas sociais de crescimento e produtividade.
  • Produções artísticas que abordam doenças cognitivas como Alzheimer ou demência (o conto Viagem a Petrópolis de Clarice Lispector, 1964) ou doenças psicológicas e mentais como a depressão (o filme Boa sorte de Carolina Jabor, 2014) e discutem tanto a perda de controle pela doença como as terapias que a elas se aplicam.
  • O planejamento da própria morte: o suicídio como “saída” (como o filme Somos tão Jovens de Antonio Carlos da Fontouras, 2013).
  • Formas de lembrar: diários, fotografias, vídeos

9. Modelagens do passado literário dentro e fora da ficção no século XIX

–Roger Friedlein, Marcos Machado Nunes, Regina Zilberman –
Contato(s) - roger.friedlein@rub.de /

marcos.machadonunes@rub.de

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Descrição:
Nos dois lados do Atlântico, o longo século XIX foi palco de transformações e rupturas que afetaram contingentes cada vez maiores de pessoas em diferentes dimensões da experiência. Algumas dessas transformações se consolidariam, incorporando-se a estruturas político-sociais e mentalidades; outras, porém, seriam vivenciadas por ou fariam sentido somente para grupos reduzidos, enquanto muitas outras se anunciariam e restariam limitadas à promessa. A cultura e a literatura desse século de transformações e promessas de transformação não deixarão de refletir e, em muitos casos, reivindicar e exercer um protagonismo nesse ambiente de rupturas e projeções. Serão uma cultura e uma literatura marcadas por uma aguda consciência da história e da temporalidade, que se atribuem a missão de inventar um passado, dar sentido a um instável presente e projetar um futuro para a coletividade em que se imaginam inseridas. Não por acaso, será esse o século que verá, nos dois lados do Atlântico, florecer e consolidar-se a historiografia e a filologia, práticas que farão circular narrativas e repertórios de textos, a partir dos quais seria possível moldar ou confirmar identidades.

 

No entanto – e é isso o que nos interessa em particular – essa cultura e essa literatura também inventam um passado, dão sentido a um presente e projetam um futuro para si mesmas. Na literatura, foco desta seção, a consciência da temporalidade vai se manifestar sobretudo na constituição de múltiplas instâncias de reflexão sobre o passado literário. A mais evidente e sistemática dessas instâncias será a historiografia literária, que emerge e se consolida ao longo do século XIX. Contudo, a reflexão sobre o passado pautará a discussão pública sobre a produção contemporânea, na imprensa, nos panfletos, em paratextos (pensemos nas recorrentes polêmicas literárias ao longo do século, em Portugal e no Brasil). Nessas instâncias, que poderíamos abrigar sob o nome de crítica, a consciência da temporalidade estará manifesta também na leitura das obras a partir de seu potencial transformador da tradição literária, com as tentativas de inovação passando por diferentes avaliações.   

 

Menos evidentes serão as reflexões sobre o passado e o potencial transformador incrustadas no próprio texto literário. A partir do Romantismo, será notória a influência da consciência da história sobre a literatura, como atestam a popularidade do romance e do drama históricos, as tentativas de escrita de poemas épicos, as temporalidades do sujeito individual (infância, saudade) e coletivo (medievalismo, poesia popular e Indianismo) na lírica. Considerando, porém, que a prática literária sempre pressupõe um nível de conhecimento dos códigos disponíveis e uma reflexão sobre eles, terá a consciência histórica oitocentista alterado as relações do fazer literário com o passado da literatura? De que modos e em que medida se dariam essas alterações? Para dar conta dessas questões, um primeiro passo seria pensar que a reflexão poderá estar implícita ao texto, podendo ser resgatada no trabalho hermenêutico; por outro lado, ela não raro estará externalizada em discursos sobre o passado literário no interior do próprio texto. Outra instância de reflexão incrustada no texto, pouco estudada, é a encenação de discursos literários do passado no interior da diegese (do Camões poeta e narrador de Garrett aos poemas de Visão dos tempos, de Teófilo Braga, passando pela xácara que encerra a segunda parte de O guarani, e as Sextilhas de Frei Antão), que externalizam concepções da literatura do passado.

 

O objetivo da seção será, portanto, discutir os sentidos do passado literário na reflexão sobre literatura dentro e fora do texto literário. Um amplo elenco de questões emerge: em que medida os discursos sobre o passado em geral se conectam com os discursos específicos sobre o passado literário? de que maneira o que se busca no passado afeta configurações do presente e projeções do futuro na literatura (criação ou reordenamento da tradição e do campo literários) e fora dela (identidades coletivas e nation building)? que lugar é atribuído às coletividades evocadas ou construídas através da literatura em narrativas históricas mais amplas (histórias globais, colonialismo, centro/periferia)? que posições ou papéis os sujeitos desses discursos se atribuem nas narrativas históricas que constróem? o que nos diria uma comparação entre discursos dentro e discursos fora do texto literário? quais as possibilidades de leitura das textualizações do presente (romance e drama de costumes, representações da Modernidade na lírica e na épica) a partir das reflexões implícitas ou explícitas sobre o passado literário? como se legitimam ou deslegitimam dentro e fora do texto literário, as tentativas de transformação, inovação e ruptura estéticas? quais os usos e o potencial do rebaixamento e da paródia na leitura do passado literário?