Tradutologia e Tradução

20. Aporias e fluxos do tempo e da tradução
– Johannes Kretschmer, Maria Aparecida Barbosa, Susana Kampff Lages –
Contato(s) - jk@id.uff.br /

aparecidabarbosaheidermann@gmail.com /

susanaklages@hotmail.com

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Descrição:
Como desdobramento do congresso anterior, esta Seção se apresenta no 14. Congressso Alemão dos Lusitanistas a partir de um necessário deslocamento de perspectiva: Naquela ocasião a tradução foi vista a partir de uma fenomenologia do espaço já trazendo inevitáveis remissões à categoria temporal, inscritas esteticamente em transposições interculturais e intersemióticas que focalizavam, entre outros, o tema dos êxodos, do exílio e da memória. Agora, essa reflexão de matiz fenomenológico deverá se aprofundar, voltando-se a indagações acerca da natureza da temporalidade e sua relação com a teoria e a prática tradutória.

A pergunta basilar de Agostinho de Hipona sobre a natureza do tempo impõe-se como partida teórica sobre a construção temporal enquanto “ser ou não ser”, possibilidade ou impossibilidade categorial. Assim como formulada no décimo primeiro livro das Confissões, a questão sobre o tempo é compreendida em seu caráter de aporia pelos principais comentadores. Ora, também a reflexão e a prática da tradução deparam-se com a condição aporética de seu objeto, derivada justamente do intervalo temporal que se insere entre texto original e desdobramentos em diversos momentos posteriores, na forma de texto a traduzir, texto em processo de tradução, texto traduzido e retraduzido. Essa sucessão de momentos, que se inscreve anacronicamente a cada nova tradução, foi descrita por Walter Benjamin no ensaio “A tarefa do tradutor” como a sobrevivência (Überleben) e a pervivência (Fortleben) das obras em sua condição essencialmente póstera ou póstuma – nas traduções. A história dos comentários desse ensaio é também marcada por uma aporia: a simultânea impossibilidade e necessidade da tradução, como reiteraram Jacques Derrida e Haroldo de Campos, o teórico da tradução como “transcriação”, uma teoria plenamente consciente do caráter póstero, deslocado e anacrônico de toda tradução.

Se a tradução, como disse Walter Benjamin, é uma forma, e, enquanto tal, tentativa de fixar algo fundamentalmente móvel, ela é por isso mesmo escansão rítmica. Propomos aqui, portanto, retomar a reflexão sobre o tema dos trânsitos e fluxos, aprofundando a investigação acerca do vínculo aporético e rítmico entre temporalidade e tradução em obras literárias, fílmicas e artísticas do universo cultural lusófono. São bem vindos trabalhos acerca da tradução de obras voltadas para experiências de exílio e das dificuldades advindas do transcurso temporal e de sua fixação na linearidade da linguagem. Nesse sentido, são igualmente esperadas reflexões que tratem da tradução de obras de caráter memorial-autobiográfico, considerando, sobretudo, as torções de sentido que seu registro necessariamente anacrônico engendra. Tendo em vista o papel desempenhado pelos suportes das obras literárias e artísticas em processos de tradução literária ou intermedial, a seção espera contar também com propostas acerca do lugar da edição e das edições (ou o lugar do curador e da curadoria no caso de transposições artísticas) e do arquivo na articulação temporal das obras, seja no transcurso histórico de sua recepção, seja no tempo do agora - no Jetztzeit benjaminiano, tempo eminentemente vivo e criador.

 

Homenagem: A Seção prestará uma homenagem ao poeta e tradutor brasileiro Augusto de Campos, unindo-se às celebrações em torno de seu aniversário de 90 anos,  a serem celebrados este ano. A tradutora convidada, Simone Homem de Mello, fará uma apresentação do volume bilíngue de poemas Poesie - Eine Anthologie, por ela organizado e traduzido para o alemão e publicado pela editora Selo Demônio Negro.

21. Temporalidade(s) na comunicação, tradução e interpretação jurídicas
– Tinka Reichmann, Maria da Conceição Carapinha, Cornelia Plag–
Contato(s) - tinka.reichmann@uni-leipzig.de /

cornelia.plag@fl.uc.ptmccarapinha@fl.uc.pt

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Descrição:
Os contextos jurídicos, no sentido mais amplo que a expressão do ‘jurídico’ pode ter, encontram-se indissociavelmente ligados ao tempo.

Reminiscências

É por demais evidente o lugar do passado no universo do Direito, visível no peso e no lastro que o documento escrito tem neste contexto. A escrita jurídica (leis; autos; despachos de pronúncia, assentos, acórdãos, etc.) constitui o lugar da memória, de um passado que permanentemente enquadra o presente e sem o qual este presente não é inteligível. O conservadorismo, o hermetismo, a sintaxe e a terminologia da linguagem jurídica decorrem precisamente dessa herança que se foi sedimentando nesta área de especialidade ao longo dos séculos e têm também efeitos na atuação do tradutor e do intérprete, na medida em que este, enquanto mediador, interage com o leigo e o profissional, com a linguagem comum e com a linguagem técnica. Por outro lado, a linguagem dos textos legislativos, por exemplo, também influenciou o processo de mudança linguística, como já foi observado por Nunes do Leão no séc. XVI. Sempre houve, portanto, uma relação intrínseca entre o Direito e a linguagem.

Perceções

Enquanto sistema de relações entre o homem e as suas experiências, como é que o tempo permite aos seres humanos percecionar as suas vivências? Como se lembram delas? Qual o papel da memória na seleção dos pormenores relevantes? Através de que filtros observam e sentem o passado (seu e alheio)? Será que o tempo passa por nós ou, nas palavras de Vergílio Ferreira, é de nós que ele parte? Que efeitos têm estas perceções no cenário judiciário e na reconstituição dos factos? 

E qual é a perceção que temos, hoje em dia, do Direito e dos diversos contextos jurídicos? Ter-se-á também alterado a nossa perceção da Justiça? Haverá uma justiça ou, como diz Laborinho Lúcio, uma pluralidade de justiças? E, sobretudo, o que caracteriza a comunicação dentro da Justiça e a comunicação entre as diferentes instituições jurídicas e a sociedade? 

Num tempo de grande complexidade, incerteza e crise, que são também sempre potenciadores de crítica, como é que a comunidade de países de língua portuguesa interroga o Direito? Que pontos de convergência e de divergência se delineiam nessa partilha? Que desafios – comuns e específicos – se colocam ao tradutor / intérprete neste universo que partilha a mesma língua?

E qual é a perceção do tradutor(intérprete) acerca do seu papel nos mais variados contextos jurídicos? Qual papel cabe aos tradutores/intérpretes na construção das realidades jurídicas cada vez mais afetadas pelos direitos europeu e internacional?

 

Projeções 

Com a crise da conceção moderno-iluminista da Juridicidade (Castanheira Neves), que futuro se perspetiva para o Direito? E para o tradutor / intérprete que trabalha neste contexto? As projeções que podemos fazer, partindo do nosso presente, abarcam diferentes campos, sendo um deles o da comunicação, área multifacetada que deve questionar não apenas a comunicação intrassistema, entre os vários órgãos e instâncias das instituições judiciais, mas sobretudo a comunicação com o exterior e os reais interessados, geralmente leigos. E aqui avulta, uma vez mais, o papel do tradutor/intérprete… 

Outra projeção diz respeito ao crescente poder dos novos media nos contextos jurídicos. Qual o impacto das novas tecnologias na comunicação no âmbito do Direito? Como se posicionará o tradutor / intérprete numa comunicação à distância por meios eletrónicos? 

 

O escopo temático deste painel pretende incentivar a reflexão e o debate em torno destas e de muitas outras questões que podem ser equacionadas a partir de diferentes pontos de vista e a partir de diferentes disciplinas. O diálogo em torno da comunicação especializada, tradução e interpretação em contextos jurídicos será sempre importante e fértil.

 

Referências:

Carapinha Rodrigues, Maria da Conceição (2005). Contributos para a análise da linguagem jurídica e da interacção verbal na sala de audiências. Coimbra: tese de doutoramento.

Carapinha, Conceição e Plag, Cornelia, (2018). A interação verbal em sala de audiências: turn design. In: Marta Díaz Ferro, Gael Vaamonde, Ana Varela Suaréz, María del Carmen Cabeza Pereiro, José María García-Miguel Gallego e Fernando Ramallo Fernández (Eds.), Actas do XIII Congreso Internacional de Lingüística Xeral. Vigo: Universidade de Vigo (pp. 175-182).

Ferreira, Vergílio (1968). Aparição. Lisboa: Portugália, p. 229.Lúcio, Álvaro Laborinho (2012). O Julgamento. Uma narrativa crítica da justiça. Lisboa: D. Quixote, p. 157.

Neves, António Castanheira (2007). O direito interrogado pelo tempo presente na perspectiva do futuro. Boletim da Faculdade de Direito, vol LXXXIII. Universidade de Coimbra, p. 7.

Nunes do Leão, Duarte (1945 [1606]). Origem da Língua Portuguesa. Lisboa: Editora Pro Domo.

Plag, Cornelia (2012). Vocabulário jurídico para tradutores de português-alemão. Coimbra: tese de doutoramento.

Reichmann, Tinka (2013). A linguagem jurídica numa perspectiva histórica: contribuições de Duarte Nunes do Leão. In: Sinner, C. (ed.) Comunicación y transmisión del saber entre lenguas y culturas. Munique: Peniope, pp. 19-30

Reichmann, Tinka (2017). Schlüsseltextsorten in deutschen Strafakten. In: Roland Hoffmann, Denise Mallon und Norma Keßler (Hg.): Sprache und Recht. Berlin: BDÜ Fachverlag, pp. 100–110.

Reichmann, Tinka (2020). Welche juristischen Inhalte für die Dolmetscherausbildung? In: Babel 66 (2), pp. 311–325. DOI: 10.1075/babel.00158.rei.